
“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.”
Complementando a frase acima do escritor e jornalista George Orwell, criador da expressão “big brother” em seu livro “1984”, lembro um ditado popular que diz “o verdadeiro amigo é aquele que fala o que precisamos ouvir, não o que gostaríamos” para estes outros, damos nomes como “puxa saco”, “baba ovo” ou “paga pau”.
Pois é, confesso que andei pensando muito sobre escrever ou não algumas linhas sobre uma reflexão que fiz quando peguei o avião voltando para casa direto das areias do Postinho, palco da quarta etapa do WCT 2014, o Billabong Rio Pro. Na verdade, acredito que não fui só eu a refletir sobre isso, mas tem muita gente boa preocupada com o futuro do surf profissional e as mudanças pelas quais a ASP está passando e aparentemente irá passar, após ser adquirida pela ZoSea Media Holdings, do ex-membro do conselho da Quiksilver, Paul Speaker, atual CEO da ASP, pelo agente do Kelly Slater, Terry Hardy, e por um casal de bilionários da Florida, Dirk e Natasha Ziff, agora membros da diretoria da entidade.
O tema é polêmico, ainda existe muita falta de informação e com ela, consequentemente, um sem número de teorias e conclusões precipitadas acerca de assuntos que a meu ver ainda estão numa fase de testes. Um bom exemplo disso foi o protesto contra a tentativa de implantação de novas regras de direitos autorais, encabeçado pelo fotógrafo australiano Peter “Joli” Wilson, onde restou demonstrada não só a flexibilidade da ASP diante dos reclamos da imprensa, como também a falta de um maior estudo por parte dessa nova direção com relação a alguns assuntos.
Na minha visão, por mais que o surf para crescer necessite do apoio de outras mídias e patrocinadores, por mais que esses novos parceiros estejam buscando atingir um público maior e captar recursos fora do que nós, surfistas, entendemos por universo surf, nosso esporte, para existir, jamais poderá abrir mão de suas raízes e daquilo que o diferencia de muitos outros.
Caso contrário, se com essas mudanças de reengenharia, planejamento estratégico, “downsizing”, “benchmarking”, ou sei lá qual é a mágica da vez, na verdade apenas truques do velho capitalismo selvagem, se o surf não abrir os olhos e acabar se descaracterizando, se tornando o que não é, um híbrido de golfe, com tênis e discurso de formula um, pode acabar perdendo sua identidade, seus parceiros históricos e finalmente seu verdadeiro público, restando uma “massa de gente” que a qualquer instante pode migrar para o próximo esporte da moda e com ela seus “grandes parceiros” que irão largar a laranja assim que ela não tiver mais suco.
Feita a reflexão, vamos ao campeonato, o Billabong Rio Pro 2014 foi decidido nos detalhes, na estratégia, no condicionamento físico e até numa boa dose de sorte. Quem olhar as imagens vai achar que rolaram altas ondas, porém não foi bem assim, as ondas do Postinho estavam difíceis, imprevisíveis, com uma correnteza forte e um vento que mais atrapalhava que ajudava. Sally e Bourez mereceram a vitória, fora eles, como destaques positivos, gostei muito do surf apresentado pelo Kolohe, pelo David do Carmo e voltei encantado pela australiana Nikki Van Dijk.
Esse ano, a área VIP dobrou de tamanho, o credenciamento de impressa foi reduzido, construíram uma enorme arquibancada para o público, um espaço de interação da Samsung, além de show gratuito do Donavon Frankenreiter na praia, num palco montado ao lado do palanque.
Agora Slater é o novo líder seguido por Parko e Taj, com duas vitórias em quatro eventos Michel Bourez vem na quarta posição e Medina, o melhor brasileiro do circuito, caiu de primeiro para quinto, seguido de perto por Mineirinho em sexto. A próxima etapa ocorrerá de 01 a 13 de junho em Tavarua, Ilhas Fiji.